Como começar a advogar: 5 ideias que você deveria considerar

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Muito embora já esteja bem impresso na consciência das pessoas que o Exame de Ordem, na atualidade, é severamente filtrante (e que são infindáveis as controvérsias em torno desse procedimento avaliativo), o fato é que o chamado “mercado jurídico” está sendo percebido como estando no seu mais concorrido momento. Se antes a advocacia era uma carreira de difícil acesso e segura ascensão, a formação em Direito e o preparo para o Exame de Ordem estão bastante distantes de garantir o sucesso na carreira.

"Serious Business", no Flickr, por MCAD Library (licença CCBY)
“Serious Business”, no Flickr, por MCAD Library (licença CCBY) – Esta ilustração, de Charles Dana Gibson, mostra um jovem advogado em sua primeira causa.

Um dos pontos mais cruciais para uma carreira saudável e próspera na advocacia é o apavorante início da prática, logo depois da experiência do estágio. Este post não fala aos filhos de advogados que já têm uma sala os esperando, nem aos que já estão a caminho de uma transição entre estágio e emprego no mesmo escritório. Estes, normalmente, já possuem acesso a um sistema de trabalho com certa regularidade de demanda. Mas, o que dizer daqueles que são “o primeiro advogado (ou a primeira advogada) da família”?

Aqui, o novel advogado conhecerá cinco ideias para começar a advogar, podendo seguir uma, algumas ou todas elas cumulativamente. Os leitores perceberão que algumas ideias parecem óbvias, e alguns detalhes parecem simples demais. E posso dizer que são nessas coisas óbvias e detalhes simples que as pessoas deixam passar grandes oportunidades, pois acreditam que as coisas singelas cuidam de si mesmas (ou seja, pensam que não precisam fazer nada quanto a elas).

Aplique essas ideias, dentro das suas possibilidades, a anote os resultados dia a dia. Compre um caderno que você sinta que vai gostar, e faça um diário do seu trabalho. No começo, você terá muito poucas anotações. Mas empenhe-se no sentido de fazer um resumo do que aconteceu no dia, as pessoas com quem você falou, as estratégias que experimentou e, o mais importante – e repito, isto é importantíssimo – anote como você se sentiu ao longo do dia.

Vamos às 5 ideias sobre como começar a advogar.

1 – Estabeleça seu escritório de advocacia solo

Se você pretende escolher apenas uma das ideias, escolha esta. É praticamente impossível, hoje em dia, estabelecer uma prática advocatícia sólida e sustentável sem o estabelecimento físico de um escritório de advocacia. Os potenciais clientes tendem a não se sentir confortáveis em contratar um “nômade” como advogado.

Por mais que você tenha certeza de que vai trabalhar muito bem sem precisar de um escritório, você não será visto como um advogado estabelecido. A falta de um escritório físico é um sinal – geralmente subconsciente – de que o jovem profissional é uma pessoa cheia de dúvidas e incertezas. Ou seja, parecerá alguém sem “pulso firme”.

Basicamente, fundar um escritório solo é fácil, mas você deve dar atenção para algumas coisas essenciais. Escolha o menor espaço que você conseguir, desde que permita a presença confortável de umas seis pessoas em reunião. Ar condicionado, telefone fixo, conexão à internet, papel em abundância, computador e impressora, além de água gelada e café, são fundamentais (eu mencionei mesa e cadeiras?).

Fora a parte básica, você deve se organizar desde o início. Parece sem sentido, mas vá trabalhar mesmo se não tiver nenhum cliente. Comece o mais cedo possível. E preste atenção nisto: não passe seu tempo livre no Facebook (nem em outra rede social qualquer). Proíba-se, já que você é seu próprio empregador.

Caso você siga esta ideia e pense que não tem muito o que fazer no começo, junte-a com a ideia 5.

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Por que esta ideia é boa? As pessoas de talento ideativo-inclusivo (se você quer saber seus cinco principais talentos ou pontos fortes, também deveria experimentar o teste do Instituto Gallup, ao qual você pode ter acesso por meio do livro “Descubra Seus Pontos Fortes”, de Clifton e Buckinham) sabem o quanto é delicada a relação entre “ação” e “resultado”, observando o seguinte: quando tais pessoas têm ideias “geniais” e querem beneficiar muitas pessoas pela inclusão delas no processo de realização da criatividade, na maioria das vezes encontram potenciais colaboradores que têm tudo para fazer sucesso, exceto por um problema, qual seja a exigência de que o sucesso seja garantido e comprovado antecipadamente! Acontece que, definitivamente, não dá certo tentar criar uma carteira de clientes para, só então, abrir um escritório. Se você, com confiança, fundar seu pequeno escritório e for trabalhar com toda a diligência de um profissional experiente, tudo vai convergir para a vinda de um cliente após o outro.

2 – Divida uma sala, sem precisar se associar

Se você acha que abrir um escritório solo seria muito dispendioso no começo, ou se pensa que ficaria numa solidão insuportável, poderia fazer um acordo com algum colega de confiança, de modo que uma sala possa ser usada por duas pessoas em períodos diferentes.

Usar a sala ao mesmo tempo também é possível, mas estamos imaginando um espaço mais restrito, onde ficaria um pouco desconfortável e pouco privativo para conversar com o cliente. Se você e o seu colega estão começando, combinem de revezar períodos, para que cada um tenha algumas manhãs e algumas tardes de uso exclusivo do escritório. O ideal é que, em determinado dia, se u

m usar a manhã, o outro usará a tarde. Mas não é recomendável que um só tenha manhãs e o outro somente tardes, pois os clientes são heterogêneos. É bom, por isso, ter alguma flexibilidade.

Para que essa ideia funcione, deve ser estabelecido um regulamento, e este regulamento deve ser cumprido, com imposição de penalidades. Tudo pode ficar divertido na questão da penalidade, mas deve haver um comprometimento. Veja um exemplo: talvez esteja no regulamento a regra da sanção por uso do horário alheio, ou mesmo por ter deixado a sala uma bagunça sem arrumar para o outro período. Esta sanção pode ser evitada com um prévio aviso, de modo a permitir que a outra pessoa se organize. Sanção pode ser uma palavra forte para uma parceria entre colegas, mas você pode atenuar a questão definindo “penas” como pagar o jantar no McDonald’s ou até mesmo pagar uma quantia simbólica (50 Reais, por exemplo). Longe de ser um verdadeiro contrato, essas brincadeiras podem fazer manter o senso de lealdade ao que foi amigavelmente combinado.

Uma dica: crie primeiro seu escritório solo e depois convide um colega para aplicar a ideia 2. Desta forma, você fica no comando, e se a parceria não for interessante, tire o colega da jogada e procure um que saiba respeitar as regras.

Por que esta ideia é boa? Além de todas as vantagens da fundação do escritório solo, esta permite que você pratique uma certa socialidade (para lidar com o colega com quem você fez parceria) e permite maior flexibilidade para ir a audiências ou fazer cursos (ou passear no shopping, caso você goste de trabalhar só meio período de vez em quando).

3 – Comece um blog

Um blog vai levar novos clientes até você? A resposta é uma só: GERALMENTE NÃO! Mas o blog é um canal. Imagine um canal de TV por assinatura, que transmita programas sobre arqueologia, história e extraterrestres (não são novas matérias do Direito, por enquanto). Você deve conhecer uns dois ou três desses canais, e se você não for um telespectador ávido pelos programas deste canal, deve conhecer alguém que o seja.

Afinal, por que alguém se torna um espectador regular de algum canal de TV? Porque, obviamente, interessa-se pelo assunto. Agora, como é que pode acontecer de alguém criar um conteúdo (escrito ou audiovisual) que interesse a muitas pessoas? Há muitas formas, mas por trás de tudo deve haver um certo feeling para descobrir as necessidades de quem para e se põe a ler, ver e ouvir.

Começar e manter um blog dará este feeling a você. Você passará a querer escrever sobre assuntos jurídicos que são importantes para as pessoas, e as estatísticas do seu blog (você deve aprender a lê-las) pode ajudar nessa tarefa. Assim que você conseguir publicar alguns textos, verá que um canal vai se estabelecendo, e você poderá manter a prática de treinar seus conhecimentos através da escrita. Isto o tornará ávido por mais leituras, e poderá descobrir novas possibilidades de atuação concreta na sua prática advocatícia. Mas, por favor, crie seus próprios textos (não caia na mediocridade de colar notícias de tribunais, o que pode contribuir apenas para que ninguém queira ler seu blog).

Por que esta ideia é boa? Por mais que você se prepare, a ação gera possibilidades maiores do que as que você previu. A internet é um ambiente onde transitam milhões de potenciais clientes. Ter um canal de atualização constante na internet, vai permitir que você esteja preparado para se adaptar a qualquer situação que possa exigir uma comunicação mais intensa e mais ampla. Embora não seja recomendável esperar que o blog trará novos clientes, este canal pode manter os clientes atuais sempre conectados às suas ideias (e você às deles).

4 – Participe de eventos científicos

Desde que você tenha acesso fácil a eventos gratuitos que acontecem em universidades públicas e particulares, esta ideia é interessante para socializar em nível mais elevado. Quando falo de eventos científicos, não estou mencionando eventos jurídicos. Aliás, seria bom que você procurasse eventos principalmente não jurídicos.

Normalmente, eventos que acontecem em universidades possuem dois momentos que você deveria aproveitar para conhecer mais pessoas e, quem sabe, novos clientes. Os momentos são estes: a abertura para perguntas; e o coffee break.

Imagine que você comparece a um seminário sobre administração de empresas, aberto ao público. Evidentemente, você estuda um pouco a respeito dos temas interessantes e, depois, já no evento, aproveita o momento das perguntas para se apresentar e fazer uma pergunta ao palestrante. Acredite: o fato de você fazer uma pergunta em público, faz muitas pessoas pensarem que você tem respostas para outras perguntas, o que as induz a abordá-lo mais tarde, no intervalo para o café.

Nestes momentos, você troca informações de contato e, eventualmente, pode entregar o seu cartão. Mas, não confunda esta estratégia com a prática da captação de clientela. Segundo a nossa estratégia, tudo o que você estará fazendo é socializar-se, apresentar-se para a sociedade, colocando-se em prontidão para servir às pessoas conforme as suas capacidades profissionais. Nada impede de você mentalizar: “cliente, cliente, cliente…”. Só não pode usar de subterfúgios para angariar clientes de forma antiética.

Por que esta ideia é boa? Primeiro, porque permite um treino em estabelecimento de contatos, bem como na fala em público e conversas com desconhecidos. E, segundo, porque vai arejar sua vivência, mais habituada ao meio jurídico, diversificando os assuntos e perspectivas e, quem sabe, direcionando para alguma área de especialização que ninguém havia percebido antes. Um lanchinho grátis também é vantagem desta ideia.

5 – Escreva 50 e-mails pessoais aos seus colegas, amigos e familiares

Então, você está pronto para advogar e acha que todo mundo tem obrigação de saber disso? Mesmo que todos saibam que você já pode advogar, talvez as pessoas ainda o vejam como aquela pessoa de outro dia, inexperiente porém estudiosa, batalhando para se formar. Aquela pessoa recém-saída da adolescência (mesmo que isso tenha acontecido há muitos anos!), sem muita firmeza profissional. Ou, em caso de pessoas de mais idade, pode ter ficado aquela imagem anterior, possivelmente de uma outra profissão, ou outra ocupação qualquer.

A verdade é que você, e só você, é quem deve contar às pessoas que você já está advogando e que está pronto para o trabalho. Esta ideia dos 50 e-mails é bem severa, e trata-se de um desafio à sua paciência e perseverança. Primeiro, porque pode ser difícil listar 50 pessoas a quem você realmente queira escrever; e, segundo, porque eu não disse para escrever 1 e-mail e enviar para 50 pessoas. Eu disse: escreva 50 e-mails.

E mais: não basta abrir o editor de e-mails e escrever “Ei, estou advogando! Valeu, meu!” Não é isso. Você vai compor um e-mail de cada vez, pensando no respectivo destinatário. Por isso, se possível, escolha pessoas significativas para você. Sabe aquela pessoa que disse para você não desistir? Escreva para ela, contando como você venceu e hoje está realizando o sonho da advocacia. E aquele familiar que o inspira? Escreva para ele também. Isto também não tem nada a ver com captação de clientela. Isto tem a ver com comunicação.

Por que esta ideia é boa? Trata-se da colocação no seu novo papel social. Você estudou, batalhou, sofreu e venceu. Você cresceu. Deixe as pessoas que lhe são caras saberem disso.

Venha falar dos seus resultados

Depois que você experimentar essas ideias, volte aqui para contar a sua experiência. Como você se sentiu? Ficou mais fácil começar a advogar? Que outras estratégias você descobriu no meio do caminho? Esperamos seu comentário!

22 Comentários

  1. Caro Gustavo, preciosas as suas dicas, meus parabéns pela sensibilidade quanto a posição de nós advogados neófitos que não tem as ligações necessárias para o início de nossas atividades. Um grande abraço.

  2. Muuuito bom esse post! Está de parabéns! Se puder publicar mais dicas assim para quem está ou vai iniciar na carreira advocatícia e que seja o primeiro advogado da família ficarei muito grato.

  3. Acabei de pegar minha carteira da OAB e quero começar a trabalhar. O problema é que não tenho experiência nenhuma! (nem como estagiário), pois no meu trabalho o advogado assinou para mim o estágio, porém eu trabalho em outra função, que nada tem a ver com o departamento jurídico. A grande realidade é que não sei nada na prática, só na teoria. É desesperador.

    • Rodrigo Garcia, achei muito interessante o seu post. Passo pela mesma coisa, acabei de ser aprovada no XV Exame de Ordem. Mas achei válido tudo o que foi escrito aqui. Amanhã mesmo vou procurar um espaço físico e começar a me sentir advogada. Vai dar certo!!!

    • ola, como conseguiu vencer o desespero? estou passando pelo mesmo e dá vontade de desistir. Parece que eu não sei nada! Se puder me dê umas dicas.

  4. Gustavo, parabéns pelo post. Muito criativo e incentivador. Passo pela mesma situação dos demais colegas, tenho conhecimento teórico, porém muito tempo afastada da área jurídica, o que gera insegurança devido a falta de prática. Trabalho atualmente em um escritório novo, iniciando, o que não tem uma carta de clientes formada, está sendo difícil, pois eu fico no escritório fazendo os atendimentos e peticionamentos, pois a outra advogada também é procuradora e praticamente não vem para o escritório. Achei que teria um suporte, mas não é assim que está acontecendo. Penso, será que devo abrir meu próprio escritório? Questão financeira também preocupante, pois as pessoas acham que temos tempo livre para tirar qualquer dúvida sem cobrar valor de consulta, o que é frustrante. Dúvidas, insegurança, Até o momento não fiz nenhuma audiência, pois há poucos dias recebi minha Carteira Profissional provisória, o que por sinal demorou algum tempo pra vir da Seccional. Gustavo, essas dicas são de grande importância para quem está no iniciando a advocacia, com certeza irei repensar como devo agir profissionalmente, rever estratégias. Para que as pessoas me vejam como Advogada respeitada.
    Obrigada por todas as dicas.

  5. Já sou formada e pretendo advogar em breve.
    Gostei muito das dicas. Quando li me senti mais animada e me imaginando cumprindo todos os 5 pontos. Inclusive os 50 e-mails. 🙂

  6. Encorajador! Após esta leitura, me sinto esperançosa e cheia de vontade de colocar em prática ao menos três festas ideias!
    Realmente é muito difícil começar, as dúvidas são muitas e a falta de prática prejudica e muito a iniciação na Advocacia.
    Ainda não recebi a minha Carteira, mas já tenho minha inscrição desde Março deste ano, consegui a aprovação ainda no último semestre da faculdade, mas confesso que a insegurança vem me travando a muito.
    Obrigada pelas dicas Dr. Gustavo, espero que elas me tragam bons resultados!

  7. Olá Gustavo!
    Estou aqui para falar da minha experiência.
    Em final de 2014 tive acesso a este post e me inspirei.
    É uma verdade que a ação gera maiores possibilidades do as que você previu.
    Eu tomei seu conselho como uma orientação. Abri meu escritório e estou muito feliz! Ainda não consegui reaver o investimento, mas é uma questão de tempo, paciência, dedicação e perseverança. Encontrei uma boa sala, em um ponto excelente. Fiz algumas obras para adaptação do escritório. Isso ocorreu em março de 2015 e em agosto comecei efetivamente a trabalhar. Então, tenho pouco mais de um ano de funcionamento.
    Confesso que ainda não enviei os emails, mas fiz muito network e publicidade por meio da minha fanpage: facebook.com/rosaneadvogada, além de ter criado um site e um blog dentro do site.
    No entanto, durante esse período, não houve dedicação total ao escritório, vez que procurei me capacitar em Mediação de Conflitos e, ao mesmo tempo, me especializei em Família e Sucessões. Agora falta apenas a apresentação da monografia e aí então toda a dedicação será voltada à minha advocacia, no meu jeito “consensualista” de advogar. Eu imprimo a minha impressão, o meu nome, a minha personalidade ao meu trabalho. Isso não tem preço!
    Agradeço ao Gustavo D’Andrea, porque ele foi a força motriz que me deu impulsão. Muito obrigada!

  8. Vendo aqui os comentários, vejo que muitos passam pela mesma situação minha. Sou formado desde 2006, mas por coisas da vida, agora em 2016 passei no exame. Peguei ontem minha inscrição. E fica a dúvida, o que faço agora? Não tenho nenhuma prática jurídica, nem mesmo de estágio. Então vamos atrás de algum advogado conhecido. Já tomei 2 “nãos”. Bate um desanimo. Mas tem que levantar a cabeça e continuar. Abrir um escritório? Nossa! Investimento pra quem tá com pouco?! Não é facil, mas acho que será o jeito. É isso Drs. Vamos em frente.

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