Conto sobre um milgare de Natal (2007)

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Caros leitores,

Escrevi este conto para desejar-lhes um Feliz Natal, cheio de alegria e inspiração. Neste Natal, pensemos em renovação, conciliação e paz. Presentes são bons, mas lembrem-se que presentes não são o mais importante do Natal. É a confraternização que conta. A reunião, o abraço e o aperto de mão.

Feliz Natal a todos!

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O MAGISTRADO E O MILAGRE DE NATAL
G. D’Andrea

A chuva caía fina na madrugada iluminada pelos postes de luzes alaranjadas, quando o garoto Cláudio olhava as pessoas saindo de um clube no centro da cidade. Ele não dormira, porque era o momento do ano que mais gostava. Era Natal! A chuva leve não atrapalhava. Adorava ver as pessoas bem vestidas e sorridentes, entrando e saindo do clube ou cambaleando pelas calçadas. Chegava mesmo a ouvir o tilintar de taças de vidro, vindo do salão onde a ceia era compartilhada. Nem o seu precioso papelão ondulado, como qual se cobria ao dormir, superava esta visão.

Cláudio não sentia inveja nem raiva. Ele tinha plena consciência de sua condição. Não era bobo. Mas, sentia-se satisfeito. Em toda a sua alegria, sentou-se no canteiro, na calçada de uma agência bancária, a alguns metros de onde algumas prostitutas esperavam seus clientes. Elas não o incomodavam, e ele as respeitava também.

Eis que chega um homem baixo, rechonchudo, de cabelo e barbas brancas, vestindo uma roupa vermelha, e usando cinto e botas pretas. Ele pediu permissão para se sentar ao lado de Cláudio. Este disse: “Pode se sentar, porque a calçada nem minha é.” O homem agradeceu e se sentou.

Cláudio, que adorava falar, perguntou ao homem: “Você também gosta de ver o movimento do clube?” E o homem: “É interessante, sim. Mas não é mais interessante estar no clube?” Ao que o menino respondeu: “Não sei, senhor. Nunca estive lá dentro. Mas gosto muito daqui.” E continuou: “E o senhor? Por que está vestido de Papai Noel?”

O homem teve um sobressalto. Havia esquecido que estava vestido de Papai Noel. Ele disse: “Esta roupa, eu estava usando para surpreender a minha família. Eu trazia um grande presente: eu parei de beber!” Cláudio perguntou, interessado: “E por que não está na sua casa agora?” E o homem respondeu: “Fui expulso de casa antes mesmo de anunciar o presente. Disseram que me vestir de Papai Noel era o cúmulo da minha embriaguez, e não me deixaram explicar.”

O menino disse, então, voltando-se para o homem: “Talvez eles preferissem que você continuasse bêbado.” Ao ouvir isso, o homem compreendeu que estava falando com um sábio. De repente sentiu que a luz do poste sobre eles ficava mais intensa, enquanto ao longe se ouviam risadas abafadas de prostitutas e de bêbados. Cláudio continuou, agora com uma voz que não parecia humana: “O senhor, depois de muito sofrer, encontrou a si mesmo e parou de beber. Voltou a se reconhecer. Posso ver isso no seu rosto. Mas seus familiares não o reconhecem mais e, por isso, o expulsaram de casa.”

O homem, então, esclareceu: “É exatamente como eu me sinto. Nos últimos trinta anos fui magistrado e meu trabalho foi julgar, decidir, conciliar. Encontrei na bebida uma fuga para as tensões do cotidiano. Mas somente hoje tomei coragem de abandonar a garrafa de uísque, porque entendi que não poderia mais beber. Entretanto, quando fui anunciar a minha decisão, fui expulso de casa.”

A intensidade da luz pareceu, agora, diminuir, tornando-se normal novamente. O magistrado olhou para Cláudio e sentiu vontade de chorar, perguntando-se por que nunca encontrara alguém tão sábio em sua vida. O magistrado fez mais algumas perguntas, e constatou que o menino não tinha família e era cuidado pelas prostitutas que trabalhavam nas redondezas. Depois, com a voz muito calma, mas firme, perguntou com seriedade para Claúdio: “Depois das festas, gostaria de se tornar um magistrado?” Ao que Cláudio respondeu: “Se for depois das festas, eu quero!”

O que aconteceu depois disso foi que, no dia seguinte, o magistrado retornou ao local onde conversara com Cláudio para buscá-lo. Pretendia organizar toda a documentação necessária para adotá-lo, e provê-lo dos estudos necessários para que pudesse se tornar, no futuro, um magistrado. Porém, ao procurar por Cláudio, não o encontrou. Havia desaparecido. Procurou por horas, até a noite chegar. Foi perguntando por Cláudio às prostitutas que iam chegando. Nenhuma delas sabia de nada e nunca tinham ouvido falar desse menino.

O magistrado estava certo de que vivera um milagre de Natal, embora tenha continuado a procurar Cláudio ao longo de sua vida. Mas, em sua homenagem, veio a adotar doze crianças, sendo seis meninos e seis meninas. Todos se tornaram magistrados. Hoje, todos os anos, no Natal, cada um dos doze magistrados se reúne com sua família e relembra o milagre de Natal que lhes devolveu a vida, quando já não tinham mais esperanças. E choram de saudades daquele magistrado barbudo, que nunca mais tocara na bebida até a sua morte.

Os doze magistrados ainda procuram por Cláudio, todos os dias, mesmo que apenas em seus pensamentos.

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Gustavo D'Andrea é advogado especializado em Direito Digital, mestre em Ciências (Psicologia) pela FFCLRP-USP e doutor em Ciências (Enfermagem Psiquiátrica) pela EERP-USP. Mantém o blog Forense Contemporâneo desde 2005 e criou a Forensepédia.

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