Cupins humanoides (Fatos Ribeirão-Pretanos #2)

0
💡

Acesse a lista completa de publicações da coluna “Fatos Ribeirão-Pretanos”: http://gustavodandrea.com/2014/09/25/fatos-ribeirao-pretanos-lista-de-posts
———-
Um livro antigo de registros ou algo parecido, com as páginas amareladas e parcialmente consumidas por cupins, que abriram labirintos na escuridão daquele volume até que alguém os descobrisse ali. Foi o que mais me chamou a atenção numa exposição (Noturno, de Lucas Simões e Roberta Ferraz) que visitei no Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeirão Preto. Aliás, a visita foi com o propósito específico de voltar aqui e escrever sobre o tema proposto pela exposição: a morte. Sobre a exposição, não tenho mais nada a dizer. Deve ser por causa emocional, talvez.

tarot_death_13

Foi cedo que aprendi que a morte pode conter várias interpretações. Quando eu era criança, ganhei um baralho de tarô para me divertir com as imagens e as possibilidades do “jogo”. Junto havia o livro explicando tudo. Ler a sorte das pessoas era divertido e percebi rapidamente que tudo ficava mais interessante quando eu falava o que as pessoas queriam ouvir. Só fiz isso em casa, com irmãos, primos e amigos, como se fossem aquelas sessões de mágica com cartas ou moedas que a gente vê nas festinhas. As cartomantes podem ficar despreocupadas, pois não sou concorrente na prática.

Para uma criança, é bem estranho ir passando pelas cartas e, de repente, dar de cara com um esqueleto ceifando um campo. Era a carta da morte, a de número 13. Tentando entender o motivo de a carta estar ali, em meio a um baralho de leitura de sorte, li que a carta poderia ser entendida como fim de um ciclo e início de outro. Não quer dizer, necessariamente, que se trata da morte de uma pessoa. Pode ser a “morte” de uma fase da vida, de um sistema de ideias, ou mesmo de uma relação de autoridade que se tornou nociva e obsoleta. E sempre há um novo começo, um novo cultivo, uma nova vida, depois da “morte”.

Ribeirão parece estar em época de ceifa. Matas pegando fogo, gente morrendo de doenças urbanas, estabelecimentos comerciais agonizando e fechando, muito verde sendo devastado para dar lugar a prédios onde ninguém vai morar, e assaltos e mais assaltos. Os caminhos estão mais estreitos, e os carros já querem andar pelas calçadas. Os dias estão mais curtos, não se dorme mais como antes. Acorda-se cedo demais, talvez para ver se sobra alguma coisa da colheita, quem sabe?

O recado da carta da morte é que não adianta tentar fazer alguma coisa, quando ela vem para dar fim a um ciclo. Deve-se aceitar, esperar. O que muita gente não vê é o outro lado da história: o lado do recomeço. A sensação de que a cidade está morrendo é, na verdade, uma armadilha psicológica. Vendo vários cantos da cidade abandonados, sujos, feios e vandalizados, nossa tendência é migrar, entregando tudo de bandeja para que outros se apossem da terra fértil e a façam produzir bons frutos.

Conheço um empreendedor imobiliário que tem uma noção bem prática sobre o caos urbano em que vivemos, de acordo com uma analogia que faz aos seus negócios. Ele sempre diz que adora comprar casas em péssimo estado, semi-destruídas, pois os donos já não davam o valor devido para conserva-la, e menos ainda para vende-la. Para ele, o bem cheio de defeitos e carências é o seu incentivo para colocar a mão na massa e transformar a realidade. Obtém o que as pessoas consideram palha, e se aplica para transforma-lo em ouro.

Ele diz que observa os cupins. Quando os cupins tomam conta, é porque os donos já não estão cuidando ou estão olhando para outro lado. Assim como os cupins ficam de olho, sempre prontos a saborear uma bela madeira descuidada ou um livro desprotegido, é provável que existam humanos-cupins, ou cupins que parecem humanos. Estão ali, esperando você apagar as luzes, aguardando você se descuidar para, então, tomarem o seu jardim (e não comprarem-no de você).

E a questão é essa: depois da ceifa, quem vai estar presente para cuidar da nova plantação?

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here