Não há vida segura para os brasileiros

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Como tantas vezes afirmei neste blog, são tantas coisas que eu gostaria de escrever mas, ao mesmo tempo, tanta e crescente confusão de temas e conflitos no Brasil de hoje que acaba surgindo um certo bloqueio de ideias e de temas. Outra coisa que torna bastante complicado o ato de escrever sobre temas da realidade brasileira é o nível altíssimo de controvérsias jurídicas, políticas e sociais que estão em jogo ao mesmo tempo no cenário atual. Como abordar tudo isso, ou alguma coisa dentro disso, sem ser um dos especialistas com discursos prontos nem um cientista político de alta capacidade intelectual? Por outro lado, é fato evidente que os expertos estão errando mais do que nunca. Isso se vê pela situação na qual se encontra o Brasil, incrivelmente falido e problemático no momento da História em que o volume de conhecimento e informação disponíveis encontra tamanho sem precedentes.

Tenho a plena consciência de que não tenho como concorrer, em termos de audiência, com blogueiros de jornais ou comentaristas profissionais ou amadores mais ativos das redes sociais, inclusive pelo fato de que nem perfil no Facebook eu tenho. Também não posso pretender uma concorrência em conhecimento, se bem que Robert Kiyosaki me fez perceber que o marketing é mais importante do que conhecimento, ao menos quando o assunto é ganhar dinheiro. Como não estou escrevendo este post em troca de dinheiro, então posso deixar de lado o marketing. Quanto a conhecimento, escrevo nos limites daquele que eu porventura tenha.

Desta vez não vou separar o texto em subtítulos nem destacar trechos em itálico ou negrito. A intenção não é transmitir uma informação rápida como na maioria dos posts de blog, mas sim falar àqueles que tenham interesse no assunto que intitula este post: não há vida segura para os brasileiros. Se lhes for interessante o tema, a leitura não exigirá nenhum ornamento visual.

Fundei este blog há quase 10 anos – mais precisamente no dia 24 de maio de 2005. É um blog principalmente voltado a textos de opinião jurídica, com algumas notas abrangendo diversos assuntos de modo geral e, algumas vezes, um pouco de humor. Acho que este blog é uma das melhores coisas que eu consegui realizar na vida, porque me parece que o pouco que aqui escrevi pode ter ajudado uma ou outra pessoa em busca de informação. No entanto, o “sucesso” (dizendo de um ponto de vista individual, a palavra sucesso, sem aspas, poderia até ser apropriada) de um trabalho como este acaba gerando certas responsabilidades. Uma delas é a de continuar escrevendo, especialmente sobre a realidade brasileira da forma que ela vem se apresentando aos nosso olhos e corações.

É nesse sentimento de “dever de escrever sobre o Brasil” que componho este post. O Brasil já vem apresentando uma situação de crise generalizada há vários anos, mas eu não escrevi praticamente nada sobre o assunto aqui no blog. Como eu disse inicialmente, há muito o que escrever, mas acredito que agora, no contexto em que vivemos, pequenos passos são importantes também.

O tema deste post fala sobre segurança. O imagem mental que deu início a este texto retrata as ruas movimentadas de uma cidade grande, durante um dia qualquer, e a certeza que o brasileiro tem de que não pode se sentir seguro caminhando nessas ruas, mas também dentro de seu próprio lar. Os brasileiros são desestimulados de ter a posse de armas, mas vivem sob a tensão constante relativa à possibilidade, sempre presente, de ter armas apontadas para as suas cabeças, em situações que colocam em risco – e muitas vezes tiram, de fato – seus bens e suas vidas.

Tudo acontece a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. As pessoas estão se enclausurando cada vez mais em prédios de apartamentos fortificados ou em condomínios fechados de casas cercados de elementos modernos de segurança e monitoramento. Nós, brasileiros, vivemos com medo. Medo de ser assaltados, medo de ser estuprados, medo de ter nossas propriedades roubadas ou invadidas, medo de ter a nossa família prejudicada e medo até mesmo de proferir a nossa própria opinião.

Como é possível que estejamos vivendo uma situação como essa no Brasil? Eu não saberia dar uma resposta a essa pergunta, mas entendo que nada acontece no meio humano sem que tenha sido cultivado, de uma forma ou de outra. E o que mais tem sido cultivado no Brasil, na época atual, é o ódio recíproco. Seria exagero dizer que nós, brasileiros, temos odiado uns aos outros?

Somente o ódio – que não é exclusividade de grupos terroristas – pode explicar a verdadeira guerra que a sociedade brasileira está enfrentando. Sair de casa para abastecer o carro sem saber se retornaremos com o carro ou mesmo vivos, por causa de uma crescente massa de pessoas que desprezam a vida normal e se dispõem a ser soldados de organizações criminosas que têm força o bastante para justificar o recurso às Forças Armadas no seu combate… O que é isso senão viver em clima de guerra?

Dizem que estamos longe de uma revolução. Mas eu, pessoalmente, acredito que uma revolução já aconteceu e a maioria não percebeu. Alguma revolução já aconteceu e o Brasil só está acabando de ser saqueado. O brasileiro comum está sucumbindo enquanto grandes forças se divertem. As riquezas do Brasil estão sendo literalmente roubadas por grupos de pessoas que se riem das leis. A carga tributária tem aumentado, os preços dos bens essenciais têm subido e as disparidades sociais têm se agravado. A criminalidade é crescente e a insegurança chega a patamares insuportáveis.

A sensação geral é a de que nada está sendo feito, realmente, para que a situação do Brasil mude. Não se trata de mexer as mãos, fazer discursos e assinar papéis, como se isso fosse fazer alguma coisa melhorar. Os problemas em si é que não estão sendo enfrentados.

O tráfico de drogas é um exemplo. É irônica a discussão sobre a situação do usuário de drogas em comparação com a do traficante. Um não existe sem o outro. Não se pode obter drogas ilícitas sem o seu tráfico ilícito. É como dizer: “Vamos asseverar o combate aos traficantes, mas vamos proteger os milhões de pessoas que consomem as drogas e que, por isso mesmo, sustentam o tráfico…” Não é incongruente?

Cada vez mais pessoas no Brasil não entendem o que significa trabalhar, nem compreendem o valor que o trabalho das gerações anteriores teve para o desenvolvimento das suas famílias. Há quem condene qualquer um tenha um pouco mais, mas não considera que muitos herdaram o que seus antecessores conseguiram a partir do nada, com sangue e suor, e que outros cresceram com os seus próprios esforços, para si e pensando nos seus sucessores.

Por que essa crescente ignorância em relação aos valores do trabalho para a vida honesta e próspera? Porque o Brasil tomou uma conformação tal que trabalhar honestamente tem significado, cada vez mais, escolher o lado do alvo dos ataques, tiros e roubos. Somente num clima de ódio e guerra é que pode existir o medo de perder tudo a qualquer momento, saindo ou não de casa, enquanto assistimos às pessoas fracas de espírito colocarem os seus demônios para fora e devorarem tudo o que veem pela frente, enquanto galgam posições de um brilho e magnitude que só o marketing consegue criar.

Como os meios e instrumentos legítimos oferecidos para a proteção dos direitos mais essenciais não estão sendo nada eficazes, o resultado é este: não há vida segura para os brasileiros.