O porteiro cristão (Fatos Ribeirão-Pretanos #9)

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Walter é o nome fictício que escolhi para esta figura: um homem grande, corpulento e, para quem não conhece, realmente amedrontante. Começaram a falar mais dele na sua ausência e ele próprio passou a se fazer mais presente, embora nada tenha mudado na sua rotina de trabalho como porteiro de uma unidade médica de emergência, em Ribeirão Preto.

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Palestinos entraram nesses dias numa sinagoga em Jerusalém. Houve mortes, efetuadas com armas de fogo e outros instrumentos. Dizem as notícias que houve gritos de que tudo estava sendo feito por Deus. Você sabe, a sinagoga é o templo religioso dos judeus, assim como uma igreja é para os cristãos e uma mesquita é para os muçulmanos.

Não conheço – e isto é evidente, pois vivo na região nordeste do Estado de São Paulo – a realidade diária da guerra religiosa que está acontecendo no oriente médio. Aliás, não consigo entender praticamente nada sobre “guerras religiosas”, porque sempre que tento pensar, de modo crítico, em acontecimentos com este de Jerusalém, começo a pensar nos templos como escolas de violência, pois parece mesmo que é ali que ensinam que a humanidade está divida entre quem está ali e quem deveria estar ali e somente ali, sob pena de dever ser banido dessa mesma humanidade. É aí que a minha cabeça começa a dar nós, e nada mais faz sentido.

O porteiro estava o tempo todo lendo a bíblia, com atenção, todo absorvido na sua leitura, mas sem deixar de prestar atenção em tudo à sua volta. Aliás, embora estivesse com os olhos voltados à sua bíblia, parecia muito mais presente do que na época em que ficava de costas para a rua, enquanto assistia a um jogo de futebol ou algo do tipo.

As notícias também dizem que o primeiro ministro de Israel já anunciou que o acontecido terá troco. Mas a União Europeia quer que haja muita calma nessa hora. Não sei. Uma invasão e homicídios dentro de uma sinagoga, e alguém pede calma… Deve ser porque a coisa é comum por ali. Aí é que está! Você, que é mais esperto(a) do que eu, deve estar pensando: “Claro, esse tipo de coisa acontece muito por lá.” E eu digo que é justamente isso que temo: as coisas mais horrorosas vão se tornando habituais e, então, protestar fica meio tosco, não é?

Para todos os efeitos, portanto, eu mesmo declaro como sendo puramente ignorante este meu post. Desta forma, estou totalmente livre de qualquer necessidade de saber o que é ou não é habitual, em tal ou tal lugar, bem como estou plenamente isento de qualquer exigência de adotar esta ou aquela posição, como se nada existisse senão o bom senso e o ver as coisas como elas são.

Entre as suas leituras, o porteiro acabou me parando para conversar sobre como a vida dele tinha se transformado quando olhou para si mesmo e, vendo que seu filho não o podia tomar como exemplo, mesmo assim cresceu na vida. Com lágrimas nos olhos, ele disse que ele, seu filho, é que se tornou um exemplo para si, antes mesmo de pensar em qualquer coisa relacionada a religião. Depois, começou a frequentar um dos vários templos religiosos de Ribeirão Preto.

Walter é um homem de sorte, alguém que Jesus provavelmente teria gostado de conversar logo que alcançou idade para tanto. Daquele tamanho, chorando ao contar como se transformou e como a sua vida, agora, só brilha em todos os momentos. Tem sorte porque teve tempo e liberdade de olhar para si mesmo. É de mexer com o coração.

É curioso que Walter não me perguntou nada antes de conversar. Não perguntou se eu tinha alguma crença ou religião, nem tentou me convencer de qualquer coisa. A religiosidade de Walter é inofensiva para mim, e a minha é inofensiva para ele. Conversamos, não competimos, pois não há nada para competir quando se é humano. Ele mesmo apontou o seu evangelho e disse que Jesus veio como ser humano e pelo ser humano, e não apenas por ou para alguns.

As principais religiões, aquelas que têm mais adeptos no mundo, vivem falando de uma outra vida, além do mundo. Dizem também que do mundo nada se leva (bem, todo mundo já sabia disso). Isso implica que terras, dinheiro e armas não terão efeito nenhum no céu. Se estou falando bobagem, invoco a minha declaração de ignorância acima registrada. E aproveito a lembrança da declaração, para falar mais uma “bobagem”: por que as pessoas não podem abrir mão de coisas que matam outras pessoas e viver como Walter, o porteiro cristão?

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