Perplexidade: o Brasil e o seu patrimônio em chamas

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Século 21, Brasil. Primeira página da Folha de São Paulo, quarta-feira, 17 de setembro de 2014. Uma foto tirada por Zanone Fraissat para a Folhapress, mostrando um ônibus público de dois “vagões”, estacionado em frente ao Theatro Municipal de São Paulo, próximo a uma placa onde se lê “Vd. do Chá”. O ônibus está totalmente em chamas.

Numa aula de filosofia do segundo colegial (o ensino médio de hoje), aprendi uma coisa que deve ser mesmo muito importante, pois é só o que lembro de toda a matéria dada em filosofia naquele ano. Não por culpa da professora, mas porque aprender filosofia com 15 anos de idade, em meio a milhares de outras coisas para decorar para as provas, é algo meio complicado de assimilar.

O que aprendi naquela aula, afinal, foi que uma forma inteligente de ver o mundo seria por meio da perplexidade. Provavelmente o tema foi para os campos da criança interior, da pureza da visão infantil e de como seria ótimo para nós manter, na vida adulta, uma visão de perplexidade sobre o mundo. Hoje, eu complementaria o tema da perplexidade com o tema da consciência, ou a visão consciente do mundo. Acho que uma coisa completa a outra.

Tento olhar a fotografia do ônibus incendiado com este olhar de perplexidade, como se coisas parecidas nunca tivessem acontecido. Esforço-me para não considerar o significado da foto e da notícia que a segue como fatos para simples comentários no formato de crítica de cinema. O que vejo não é um roteiro sendo executado por um diretor, aquilo na foto não é um cenário e as pessoas envolvidas na história não são atores.

Forço um aumento no nível de estranhamento filosófico por meio do acréscimo de imagens do meu arquivo cerebral. Realmente, não era um fato inédito. Há uma coleção de ônibus em chamas em meio a essas imagens da mente, cada um contando uma história que abrange temas como pobreza, violência, vandalismo, crime organizado, falta de condições dignas de vida e impunidade.

Há uma nova série no canal History, que se chama “Terra de Ninguém”. Não chegamos a este nível, ainda. Mas é triste lembrar desse título quando estamos falando do 5º maior país do mundo e seus 200 milhões de habitantes, com o seus impostos exorbitantes, suas áreas produtivas de extensão inconcebível e seu povo que sorri (provavelmente de sarcasmo) nos castigos diários de purificação de pecados alheios.

O exercício de perplexidade do ônibus incendiado do viaduto do chá grita: em todos os setores geográficos e políticos, o Brasil precisa começar a ser governado.