Por que os jojubras precisam parar para respirar um pouco?

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Faculdade, aulas, provas, Exame de Ordem, “cursinhos”, resumos, concursos, mais provas… Estas são algumas coisas que preocupam grande parte dos juristas de hoje, especialmente os jovens juristas brasileiros (a quem eu chamo de “jojubras”; ou “jojubra”, no singular – por exemplo: “Fulano vive como um autêntico jojubra.”). Acompanhando estas preocupações estão o estresse, a tensão, a indecisão, o nervosismo, entre outros males, que parecem estar presentes especialmente naqueles que estão prestando concursos públicos para carreiras jurídicas (e não são poucos).

Um contexto não-saudável
Este é um contexto que eu chamaria, na falta de um termo melhor, de não-saudável. Centenas, milhares de pessoas se inscrevem nos concursos públicos jurídicos. Os programas dos concursos, em geral, abrangem um volume enorme de matérias. “Cursinhos” jurídicos proliferam-se, prometendo aprovações. São muitos os bacharéis em Direito que freqüentam tais cursos, depois de terem passado pelo menos cinco anos na faculdade de Direito. Alguns, mais animados, freqüentam “cursinhos” ainda enquanto estão se graduando na faculdade. Não é uma situação fácil. Muitos cursos, inclusive, proporcionam aos alunos lições de auto-ajuda e auto-determinação, para que eles não desistam de prestar concursos (nem de freqüentar o curso). Livros trazem lições, roteiros, esquemas, tabelas, tudo para que o candidato (popularmente chamado de “concurseiro”) se organize, se equipe, se prepare para a batalha, ou melhor, para as provas dos concursos.

Já ouvi de mais de uma pessoa que os “cursinhos” são bons, porque ajudam a dar um rumo aos estudos, possuem professores bem informados, que entendem de concursos etc. Realmente, se assim não fosse, tais “cursinhos” não seriam tão populares, certo? Mas, o que quero entender é o seguinte: se os “cursinhos” são tão populares, quer dizer queas faculdade de Direito estão se mostrando insuficientes para tornar os jojubras aptos para a vida profissional? E, se assim for, isto seria aceitável?

Parando um momento para respirar
Caros juristas, parem um momento para respirar. Sem perceber, muitos estão mergulhando em um turbilhão de informações, lutando dia a dia para memorizá-las, e – quem sabe? – conseguir lembrá-las na hora de fazer uma prova de concurso público.É o momento de refletir: vale a pena transformar-se em uma máquina de respostas prontas? Vale a pena deixar-se adestrar para ter a habilidade de identificar alternativas corretas e incorretas em uma prova? O que me deixa perplexo é o quanto o processo de seleção de candidatos em um concurso público parece arriscado. Arriscado não tanto para o concursando, mas muito mais para o órgão público no qual os aprovados irão trabalhar.

Por exemplo: uma pessoa de extrema competência para fazer petições bem fundamentadas, tendo códigos, livros e um mínimo razoável de tempo para elaborar as suas peças – adicionando-se a isso uma capacidade de dialogar com outras pessoas – pode simplesmente não conseguir responder corretamente às questões de uma prova de concurso público. Enquanto isso, outra pessoa, egocêntrica, sem habilidade para se comunicar com outras pessoas e sem capacidade para compreender algo além do que lhe é sistematicamente imposto (muita vezes sob seu próprio patrocínio), pode passar brilhantemente nas provas de um concurso público, mas é provável que venha a ser um péssimo profissional. Isto é apenas um exemplo. A primeira pessoa poderia ir muito bem em um concurso, enquanto a segunda poderia ir muito mal. Aí é que está o risco para o órgão no qual os aprovados irão trabalhar: tal órgão não sabe verdadeiramente quem está contratando!

É claro que, quando se fala de quem presta concursos públicos, fala-se quase sempre em sonhos e necessidades. O sonho de passar em um concurso público. A necessidade de passar em um concurso público. O sonho concretizado leva à realização pessoal. A necessidade satisfeita, aumenta a perspectiva que o aprovado tenha diante de si. Não se deve negar que existam sonhos e necessidades, entre aqueles que prestam concursos públicos. Além disso, deve-se lembrar o quão belas são (ou, pelo menos, podem ser) as carreiras jurídicas públicas.

Dito isto, chego no ponto que eu queria frisar desde o começo deste post: os juristas devem estudar o Direito. A recomendação de “parar para respirar” é no sentido de olhar o Direito com mais calma. Há tantas obras magníficas na produção jurídica brasileira, mas aquela euforia por obter “conhecimento”, especialmente para concursos, está desviando nossos jovens juristas do gosto pela reflexão, pelo debate e pelo diálogo.

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