Pós-verdade e o Direito

0
💡

Pós-verdade

Os jornais do mundo todo estão noticiando a escolha do Dicionário Oxford para a palavra do ano de 2016: “pós-verdade”. Em tradução livre, segue o verbete disponibilizado no original em inglês neste link:

Pós-verdade
ADJETIVO
Relativo a ou que denota circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais.

A pós-verdade no Direito

A eleição do termo neste ano faz valer um comentário para o campo do Direito, embora sua utilização tenha sido mais voltada para a política da atualidade. Na área jurídica, porém, a palavra “pós-verdade”, na acepção dada pelo Dicionário Oxford, adapta-se perfeitamente, em especial se considerarmos o estado atual do Poder Judiciário (ao menos, no Brasil) e o processo decisório influenciado pelos comentários — nem sempre fundamentados — amplamente difundidos nas redes sociais on-line.

A Internet tem sido palco de um exercício da liberdade de expressão sem precedentes. Não se pode encontrar nenhum momento histórico precedente onde as pessoas tivessem acesso a um ambiente de difusão de mensagens como o que entendemos hoje por redes sociais. Podemos sentir que os usuários dessas redes sociais poderiam expor praticamente qualquer ideia, sem freios materiais rápidos o suficiente para impedir a proliferação, por meio de comentários e compartilhamentos.

Existem, é claro, as consequências da exposição de opiniões, principalmente quando elas não agradam à maioria ou vão de encontro a princípios geralmente aceitos pela maioria dos destinatários. No entanto, estamos longe — realmente muito longe — de termos um ambiente “virtual” constituído de mensagens embasadas sempre em argumentos válidos.

Internautas que se dispõem a parar para pensar tendem a ficar pasmos com esse jogo que se desenvolve na Internet, onde as “verdades” são construídas com base em audiência, e não necessariamente em fatos.

Já são vários os acontecimentos recentes envolvendo posicionamentos jurisdicionais absurdos que chegam ao conhecimento das redes sociais e submetem-se aos seus comentários. Juízes, a cada dia, são “flagrados” proferindo decisões que assustam a qualquer espectador atento. Admissões de técnicas de tortura para dispersar manifestantes, posições favoráveis a prisões sem condenação definitiva processo criminal, bloqueios de aplicativos móveis quando a constrição financeira era possível; são alguns exemplos. No campo legislativo e administrativo público, a situação não é diferente. Muitos absurdos são vistos, comentados e denunciados.

Alguns criam e divulgam fatos de forma criativa, mediante vídeos divertidos difundidos por aplicativos de mensagens instantâneas. É o caso, por exemplo, de um vídeo que demonstra o quanto é excessivo o preço dos carros novos no Brasil, com valores para além de qualquer cálculo comercial razoável. Ou, como outro exemplo, quando olhamos a conta do restaurante e descobrimos altos impostos (algumas vezes superiores a 40% do valor da nota).

Mesmo com os dados em nossas mãos, exaustivamente divulgados e comentados a todo momento nas redes sociais, fica ainda sem explicação por que ainda não conseguimos promover mudanças, por que elegemos os mesmos políticos, por que não chegamos ao tão sonhado momento em que o País assume a sua riqueza e se torna um lugar seguro, justo e igualitário.

Depois de incursões em reflexões desse tipo, voltamos às redes sociais e, surpresos, encontramos pessoas que ainda ignoram (de propósito ou não) os fatos e promovem ideais sem sentido ou com defesa parcial de pessoas que o mundo sabe serem desonestos e de situações, no mínimo, questionáveis.

Ou seja, a pós-verdade é realmente muito apropriada ao momento que estamos presenciando.

A pós-verdade como negação de “verdades” impostas

Há também um possível sentido muito importante para o termo “pós-verdade”, qual seja o de recusa daquilo que é dado à população como se fosse verdade, mas que, no fundo, não é. Seria uma extensão da interpretação da definição dada pelo Dicionário Oxford, desde que possamos pensar em “fatos objetivos” como informações que, talvez, não sejam reais.

Seria o caso, por exemplo, de recebermos a informação de que o País está em crise financeira e, sem termos “visto” a informação real, acreditarmos que é impossível que o Brasil esteja em crise, com tanta arrecadação tributária, área geográfica imensa e riquezas naturais incomensuráveis.

Estou entre o que desconfiam dessa dita “falta de dinheiro” do Brasil.

E você, o que achou da eleição da palavra “pós-verdade” como palavra do ano de 2016, pelo Dicionário Oxford?

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here