Programação do dia: ficar em casa (Fatos Ribeirão-Pretanos #8)

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O cenário que escolho para o texto de hoje da coluna Fatos Ribeirão-Pretanos é o shopping Iguatemi de Ribeirão Preto e a região em torno dele. Depois de rodar alguns quilômetros, passando por uma curva estreita e perigosa e voando ao longo de um tobogã “com emoção”, finalmente quem vai de carro chega nas cancelas que abrem passagem ao confuso estacionamento, que nunca se tornou pago como tinha sido planejado.

montanhaazulAo, finalmente, estacionar o carrinho, provavelmente perto de algum caminhonete monstruosa, pensa-se duas ou três vezes antes de sair dele, para ter certeza de que se está na parte certa do shopping. Qualquer erro nessa hora vai ser frustrante, porque ninguém tem tempo e paciência de andar mais alguns quilômetros, desta vez por meio de um deserto, para ver alguma loja lá do outro lado.

Deserto? Já nem sei se seria alguma miragem. O calor, o vazio, a falta de opções que faz a gente ter que continuar andando, a não ser que queiramos nos… Bem, eu ia dizer “sentar por alguns minutos”, mas acho que isso também não é possível. Acho que estou exagerando. Não tem areia no shopping Iguatemi! Nem escorpiões.

É muito estranho. Parecia que o estacionamento estava lotado de carros, mas o interior do shopping está quase desabitado. Seria por ser grande demais? Pode ser. Mas tenho um palpite diferente, e é uma coisa que já está ficando repetitiva para quem já me ouviu dizer: é tudo falta de ribeirãopretanidade!

Ribeirãopretanidade é o feeling do habitante de Ribeirão Preto. Aqui, as pessoas têm seu estilo de vida, sua cultura, suas preferências, de uma forma bem característica e se os empresários entenderem isso, vão decolar. Enquanto não entendem e, por isso mesmo, insistem em tentar jogar para a cidade um padrão de consumo apático e nonsense, sinto muito, vão falir mesmo.

Não sou consultor de empresários, nem coach de carreira, mas bem que poderia ser. Tem milhares de coisas que poderiam ser listadas e testadas, para que a festa realmente aconteça. E aqui, em Ribeirão Preto, a coisa tem que acontecer e tocar os cinco sentidos. Essa é mais uma boa dica do que seja a ribeirãopretanidade, pois o ribeirão-pretano ainda tem os cinco sentidos, e alguns têm também o sexto, o sétimo, o oitavo…

O shopping Iguatemi e seu entorno surgiu como exemplo, porque a situação ali é gritante. Mas o fenômeno da desertificação da cidade está se espalhando de um modo geral por aqui. Calçadas desarborizadas, condomínios tem-de-tudo isolando as pessoas, e caixas trademark de vidro gigantes e quentes ao estilo “venha só se precisar muito, mas muito mesmo”. A cidade está se transformando numa verdadeira perda de tempo (e de dinheiro).

Resultado: o ribeirão-pretano está, cada vez mais, apreciando cuidar da sua própria casa, sentindo mais prazer e necessidade em melhorar seu próprio ambiente, em preparar a própria comida e em consumir via Internet, sem sair de casa. Isso é bom, em vários sentidos. Mas, também, tem seus pontos negativos: a privacidade vira prisão, e o ser fica enfraquecido pela falta de convívio num sentido mais amplo. A vida vai se digitalizando e as pessoas vão perdendo a capacidade de se relacionar.

Como a prosperidade envolve uma boa dose de relacionamento saudável com tudo e com todos, então… Bem, não preciso falar mais nada, não é?

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Gustavo D'Andrea é advogado especializado em Direito Digital, mestre em Ciências (Psicologia) pela FFCLRP-USP e doutor em Ciências (Enfermagem Psiquiátrica) pela EERP-USP. Mantém o blog Forense Contemporâneo desde 2005 e criou a Forensepédia.

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