Quanto a Black Friday custa ao consumidor?

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Pelo menos duas questões intrigam qualquer observador atento à Black Friday Brasil: a pouca transparência quanto aos descontos (e as respectivas “condições” de concessão) e o (também pouco transparente) volume do estoque.

Black Friday (ou “sexta-feira preta”), este dia conhecido como sendo de grandes descontos, termo surgido nos Estados Unidos (historicamente com tom pejorativo, ligado até mesmo a problemas de segurança pública na sexta-feira pós-Dia de Ação de Graças), é realizado no Brasil (como Black Friday Brasil) desde 2010, promovido pelo site Busca Descontos. É bastante atrativa a “atividade”, principalmente para quem compra pela internet.

Transparência nos descontos

Muito felizmente, não comprei nada nesta sexta-feira “black” de 2012. Não senti muita confiabilidade em certas lojas famosas on-line nem em lojas físicas. O anúncio da ocasião fica bem claro nos estabelecimentos e sites participantes, mas a política de descontos nem sempre fica clara.

Sinto muito, mas duvido que algum consumidor não se incomode com chamativos “até tantos %”, e restrições quanto à forma de pagamento para conseguir os tão sonhados descontos. A única declaração concreta sobre descontos neste dia (porém, seria a realidade?), está no próprio site do Busca Descontos (na página de dúvidas): “Black Friday é o dia com maiores descontos no varejo, evento já tradicional nos Estados Unidos.” É isso aí: é neste dia que o consumidor deveria encontrar os maiores descontos! Pelo que pesquisei, não passou de promessa.

Produtos similares, políticas diferentes: como exemplo da dificuldade que o consumidor poderia encontrar para se situar na Black Friday Brasil, posso mencionar casos em que dois produtos da mesma categoria (smartphones, por exemplo), da mesma marca mas em versões diferentes, na mesma loja puderam ser encontrados cada um com uma política de redução de preço diferente.

Mesmo produto, lojas diferentes, políticas diferentes: outro exemplo que pude verificar é o de duas lojas diferentes que vendem o mesmo produto, sendo que em uma delas o produto em questão nem mesmo teve desconto.

Em outras palavras: as “regras” da Black Friday brasileira de 2012, se existentes num sentido pleno, estavam difíceis de encontrar ou entender e as diversas lojas não se alinharam quanto às políticas de descontos para produtos determinados.

Um estoque para cada ocasião

Evidentemente, os princípios da contabilidade estão evoluídos o suficiente para que se evitem manipulações a respeito do estoque real de um estabelecimento comercial. Isto não quer dizer que o consumidor não possa sentir algo de desconfiança quando, bem naquela noite de sexta-feira agraciada de descontos sensacionais, o produto a cujo preço acompanhou durante meses tenha sido vendido até a última unidade!

Para alguns está tudo bem, não precisa nem levar muito a sério: “As melhores ofertas podem acabar rápido, faz parte do jogo”, diz o Busca Descontos.

Legítima preocupação ou mera paranoia anticapitalista? Não importa, pois é inegável que a questão do estoque não é transparente. O consumidor não sabe quantos itens realmente ainda existem guardados, nem sabe o que poderia fazer se ficasse provado que os itens existem e só serão “revelados” novamente depois do dia dos descontos.

Admito que a Black Friday ajuda bastante gente a conseguir certos produtos por um preço menor do que o de costume, principalmente quando o consumidor já estava acompanhando os preços do que planejou comprar. É o consumidor que ajuda o mercado girar, e ainda suporta uma carga tributária muito pesada. Obter desconto, portanto, não deveria parecer um favor. Todavia, que preço uma sexta-feira preta realmente tem?

Parabenizo os estabelecimentos que não se renderam a essa corrida maluca. Pois sem plano nem conhecimento por parte do consumidor e sem transparência por parte dos comerciantes, a Black Friday, nesses moldes observados, deixa muito a desejar, confunde aquele que quer comprar e fomenta uma concorrência bastante desequilibrada. Tenho até pavor de pensar na Cyber Monday!

2 COMMENTS

  1. Olá, dr. Gustavo. Eu ainda levanto mais uma questão: a questão de os provedores das empresas brasileiras “aguentarem” o volume de acessos dos anunciantes.
    As empresas além das questões formais que conhecemos, como o dr. citou, como a transparência dos descontos, sendo que cada cada empresa praticouo o que quis, e algumas delas foram para no Procon. Decisão acertadíssima de quem se sentiu lesado! Muitas colocam preços maiores quando anunciam o valor anterior, e colocam o valor real como sendo a promoção. E isso, nós que também somos consumidores podemos verificar nas lojas físicas.
    A questão a que venho me referir mais precisamente neste comentário é quanto à questão da Tecnologia. As empresas que aderiram a esta “Sexta-feira Negra” (mais um fato que nós brasileiros copiamos de outra cultura), não têm, ou não querem pagar pelo volume de acessos a que se comprometeram realziar. Lógico, com efeito nacional, se o provedor não é capacitado para o volume de acessos a que se destina acaba “caindo” e dando a mensagem de erro, ou de acesso negado, ou de página ocupada, etc.
    Resumindo: quem se sentiu lesado deve fazer sua reclamação formal para que essas empresas sejam responsáveis pelas informações geradas em público.
    Abraços.
    Viviane Batuta
    colega advogada

  2. Viviane,
    Obrigado pelo comentário. Ótimo que você mencionou a tecnologia. De fato, a questão da tecnologia está cada vez mais presente nas relações de consumo, e muitas vezes não percebemos o quanto a tecnologia influencia no exercício (ou na violação) dos direitos. Precisamos estar sempre atentos a este prisma tecnológico dos direitos.

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