Ribeirãopretanidade (Fatos Ribeirão-Pretanos #3)

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Acesse a lista completa de publicações da coluna “Fatos Ribeirão-Pretanos”: http://gustavodandrea.com/2014/09/25/fatos-ribeirao-pretanos-lista-de-posts
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Tem aparecido no noticiário recente que o Executivo de Ribeirão Preto anda tendo dificuldades em encontrar concorrentes para as licitações que tenta fazer, em especial as que visam contratar empresas para a realização de obras, mas também para venda de terrenos públicos. Paralelamente, o comércio Ribeirão-Pretano parece estar sofrendo de falta de ar, exceto quando se trata de restaurantes japoneses.

ribeiraopretanidade

Por que as coisas não dão certo por aqui? Aliás, a pergunta seria melhor assim: como é possível que alguma coisa não dê certo em Ribeirão Preto, esta cidade rica em todos os sentidos? Empresas não sentem vontade de investir na cidade, as novidades não encantam os habitantes, a cidade parece só piorar em serviços e opções. Até o mercado imobiliário está em baixa, no momento. Ou seja, a riqueza da cidade não consegue florescer.

Tenho um palpite sobre o que poderia ser uma das causas da situação atual da cidade: falta de compreensão e de cultivo da ribeirãopretanidade. Reconheço que eu tenho uma certa mania de inventar termos novos, e acho que é este o caso de “ribeiraopretanidade”. Comecei a perceber este atributo quando notei o desconcerto dos paulistanos (ou, pelo menos, pseudo-paulistanos) diante da energia cultural e intelectual da nossa cidade.

Um ponto de vista que parece comum entre vários paulistanos com quem já conversei é o de que Ribeirão Preto é uma terra de caipiras, deixando claro que, para eles, “caipira” tem um conceito negativo, para não dizer ofensivo. O preconceito não consegue ser comprovado, pois o que o paulistano encontra aqui é um povo exigente, comunicativo e bem-humorado, diferente do habitante metropolitano que consome sozinho qualquer coisa que seja cara, correndo e de cara fechada. E quando escuto alguém falar mal de “caipira”, rio por dentro e meu orgulho de ser caipira nato aumenta.

Ribeirãopretanidade é este orgulho. Um orgulho que, infelizmente, vem sendo atacado aos poucos e enfraquecido em favor de uma tentativa de dominação de uma riqueza que o homem da Avenida Paulista não entende: a riqueza da capacidade lidar com as pessoas e de ser autêntico. E é justamente isso que acontece, há uma tentativa de impor certas coisas em Ribeirão Preto que não são “a nossa cara”.

Não posso dizer que toda a tentativa de imposição venha da “capitar”. É mais uma questão de modelo. O modelo paulistano tenta e tenta, mas não se encaixa por aqui. Ribeirão Preto está crescendo em população, estatura e engarrafamentos, mas o Ribeirão-Pretano não aceita qualquer coisa, de qualquer jeito, nem a qualquer preço. Por isso, muitas empresas que tentam se aventurar por estas bandas se veem numa imensa dificuldade de se adaptar às exigências locais.

O problema é que a cidade vai se sentindo cada vez mais desgastada. A qualidade de vida e o acesso a bens e serviços vai ficando minguada, porque o estresse paulistano também nos atacou. Nosso clima quente e seco, nossa posição praticamente vulcânica, e todas as investidas contra o pouco que temos de recursos naturais em favor de mares arranha-céus bege-claros, tudo isso e ainda mais nos travam a vida e desestimulam a bricolagem nossa de cada dia. Está difícil de encontrar gente que quer por a mão na massa.

A cada dia que passa, por mais que possa parecer difícil, eu sinto a minha ribeirãopretanidade se fortalecer (e às vezes gritar em protesto). O doce de abóbora daquela esquina do centro pode não existir mais. O chope famoso já não é tudo aquilo. A cidade rica não consegue interessados para a sua reforma. Quase nenhum hobby se consegue desenvolver sem acesso a suprimentos e cursos na internet. E até mesmo a Casa do Advogado foi rebatizada para “casa da advocacia”, esmagando o elemento humano que havia no nome tradicional. “Por quê? Oh, por quê?” clama a ribeiraopretanidade.

Estamos saturados, sim. Mas, tenho certeza de que tem gente pacientemente “laboratoriando” nas dezoito sub-regiões para conhecer e preservar a nossa história e construir o nosso futuro. A caipiríssima ribeirãopretanidade está aqui e vai continuar.