Segurança particular comunitária: sitiando Ribeirão (Fatos Ribeirão-Pretanos #7)

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Acesse a lista completa de publicações da coluna “Fatos Ribeirão-Pretanos”: http://gustavodandrea.com/2014/09/25/fatos-ribeirao-pretanos-lista-de-posts
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torrevigilancia-2014Mais cedo ou mais tarde, teria mesmo chegado na cidade a tendência de resolver os problemas de segurança da maneira que parece a mais lógica hoje em dia: com as próprias mãos. Não estou falando da reação direta contra o crime, pegando em armas e saindo às ruas à la Bruce Wayne fantasiado, mas de outra forma tão “mãos-próprias” quanto carregar uma arma para se defender: a segurança particular comunitária.

Ainda não se divulga a prática usando a expressão segurança particular comunitária, talvez porque a maioria das pessoas parece nem querer, no fundo, que a prática seja divulgada. Para ficar mais clara esta menção, explico que estou incluindo o termo “comunitária” para denotar um tipo de segurança pessoal e patrimonial particular estendida a um grupo maior de “protegidos”, geralmente circunscritos a bairros.

Tal como ocorre nas cidades brasileiras mais típicas, a divisão do ambiente urbano em bairros não segue apenas uma delimitação geográfica, mas também uma estratificação socioeconômica. De uma maneira mais generalizada, costumamos ter claro para nós mesmos quais sejam os bairros mais pobres e quais sejam o bairros mais ricos da cidade em que vivemos ou a que estejamos habituados a visitar. Uma divisão que também parece ser percebida por criminosos, dadas as preferências para atuação, que podem ser depreendidas tanto das estatísticas policiais quanto do próprio bate-papo da vizinhança.

Em Ribeirão Preto, é possível pensar e identificar os bairros mais visados pelos criminosos, de época em época. Os moradores que ainda insistem em viver em casas, veem-se no dilema entre continuar vivendo em risco, ou mudar-se para um apartamento para, pelo menos, diminuir um pouco o percentual de chances de serem abordados por uma ação criminosa. Acontece que, recentemente, começou a se tornar mais forte o apelo a recursos mais avançados de segurança particular comunitária, e com isso estamos presenciando o início de uma nova era de vigilância, num ambiente que vai se tornando paulatinamente artificial.

Os guardadores de carros, típicos das ruas comerciais, e as rondas particulares montadas em motocicletas, já são opções desatualizadas e informais demais para as necessidades atuais da guerra urbana. Estamos diante de um movimento silencioso de privatização da segurança ou, quem sabe, da privatização das próprias vias públicas, por meio de muralhas, guaritas e câmeras. Não duvido que em breve veremos serem erguidas altas torres de vigilância, com holofotes e atiradores de elite preparados para eliminar qualquer ameaça ao patrimônio dos moradores dos bairros da paz.

Se você acha que estou escrevendo tudo isso para, em seguida, fazer um discurso a favor dos diretos humanos dos criminosos, desta vez terei de desapontá-lo. Não vou falar de direitos humanos neste texto. Estou apenas observando o que me parece estar acontecendo e, se estas observações estão incomodando você, saiba que também estão me incomodando. Mas não porque eu pense que o crime deva ser deixado livre para acontecer, em detrimento do patrimônio, da segurança e da vida das pessoas.

E sim, porque tudo isso me parece, simplesmente, errado. Alguma coisa está realmente muito errada para que os moradores de uma cidade se vejam obrigados a promover a segurança pública com os próprios recursos financeiros, a solicitar encarecidamente atenção especial da polícia e a impor a si próprios uma pena restritiva de liberdade que se agrava gradualmente, à medida em que o espaço público se torna inutilizável pelo próprio público.

Eis um bom tópico para uma discussão sobre reforma tributária. Sim! Pois deveriam incluir no cálculo dos impostos a proporção quantitativa e qualitativa em que o contribuinte, de fato, recebe as condições de convívio social pelas quais pagou. Com tanta tecnologia para individualizar mais as contribuições, estou curioso para saber quais outras desculpas virão para uma fuga ao assunto.

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