Sem o leitor, o blog é nada

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Escrever em um blog é um desafio. Quem escreve sabe, e quem nunca escreveu em um blog, pode imaginar. Por mais assuntos que estejam aí, na atualidade, no cotidiano para serem falados nos blogs, nem sempre é fácil escrever sobre eles, num simples ato de digitar e clicar. Acredito que os blogueiros, em especial os blogueiros jurídicos, entendam do que estou falando. Acredito também que há, neste momento, pelo menos uma dúzia de pessoas refletindo seriamente sobre lançar um blog jurídico. Que tal falarmos um pouco sobre esse assunto, então?

Todo blog tem muito de seu autor. A decisão de criar e manter um blog é uma daquelas que se toma na profundidade das reflexões íntimas que envolvem considerações sobre o quanto o eu está disposto a se compartilhar e tocar e misturar-se com o nós. Eu continuo refletindo na profundidade do meu ser, mas a partir do momento em que compartilho de meu ponto de vista em um blog, aquilo que escrevi estará disponível para a reflexão levada a cabo pelo eu + os outros.

Realmente não considero que estou escrevendo algo simplesmente para alguém ler, nem que alguém venha aqui simplesmente ler algo que eu escrevi. Sinto às vezes – e às vezes isso me agrada, às vezes não – que muito do que escrevo (ou tudo) é incompleto. Pensando bem, é de fato incompleto, sempre deixando sentir que há a possibilidade de debates profundos sobre cada aspecto do que aqui é escrito. É assim que um blog jurídico acaba funcionando – acho que todo blog funciona assim – permitindo amplos debates de várias formas possíveis.

Não apenas através de comentários se podem travar debates interessantes. A multiplicidade de formas possíveis para debates, a partir de blogs, é imensa e impressionante. Basicamente, imaginamos um post e comentários de leitores a este post. Entretanto isso é apenas uma parte da história. O e-mail é muito usado para contatos e debates a partir de posts de blogs. É provável que tenham sido travados ricos debates no silêncio dos e-mails, e sobre os quais os leitores dos blogs que originaram tais debates talvez nunca venham a tomar conhecimento. Posts podem surgir a partir de comentários, ou de posts ou comentários em outros blogs. Comentários em outros blogs, podem surgir de posts em outro blog ainda. Blogs podem surgir de posts em blogs!

Mas a questão não fica apenas em formas de interação entre pessoas, blogs, posts, comentários e e-mails, sem contar as redes sociais. O mais importante de tudo é que em todas essas interações há pelo menos um pouquinho de conteúdo, que é justamente o resultado das pessoas darem um pouco do eu, formando a tão rica coletividade da blogosfera. Os autores e os leitores de blogs fazem muito isso. Talvez os leitores façam isso bem mais do que os autores. Sem os leitores, os blogs nada seriam. E sem os blogs, não poderiam os leitores simplesmente ler alguma outra coisa? É uma pergunta a ser refletida.

Cheguei a pensar e rascunhar um post admitindo que o Forense Contemporâneo era um blog que chegaria perto do medíocre. Nunca tive coragem terminar e publicar tal post. Mas, eu escreveria tal post para tentar explicar que, conforme foi passando o tempo, mais e mais pessoas foram chegando ao blog – hoje pouco mais de 400 mil visualizações desde que mudei para o WordPress – e tais pessoas, aos poucos, foram sentindo que o blog representa um lugar onde podem se expressar. Que autor não ficaria satisfeito com isso? Todavia, como já estávamos dizendo, o leitor vem aqui e dá um pouco do seu eu. No caso deste blog, que é um blog jurídico, os leitores, com uma coragem e determinação fenomenais, incluem comentários que revelam seus dramas pessoais, suas buscas por soluções para seus problemas cotidianos. Elas confiam sinceramente que receberão, pelo menos, uma pequena luz, uma orientação, que as ensine a seguir por um caminho menos severo, para longe dos assoladores problemas que não escolheram para suas vidas.

O blog se torna então, uma espécie de tábua de salvação. Ou melhor, espera-se que seja uma tábua de salvação. Aí está um dos grandes dilemas dos blogs jurídicos, dilema este que deve ser pesado e pensado por quem já escreve e por que pretende escrever em blogs jurídicos. É que o Direito, o mundo jurídico, tem dois lados que já são expostos logo nos primeiros dias dos cursos de Direito em todo o País. Um lado é o lado abstrato. Outro lado é o lado concreto. O lado abstrato é o da lei para todos. Todos nós estamos sob um ordenamento jurídico. As regras jurídicas são para todos. Já o lado concreto é o lado da situação específica, é o que acontece no dia-a-dia do João, da Suzana, do Marcos, da Laura, enfim de todo mundo, no seu mundo particular ou familiar ou social.

Relativamente a ambos os lados – o abstrato e o concreto – há pessoas precisando e buscando informações. Querem saber o que dizem as leis, as normas jurídicas. E querem saber como essas normas se aplicam no seu dia-a-dia, na sua situação concreta, específica. Para ambos os lados, há sempre leitores que vêm e perguntam, sugerem, afirmam, debatem etc. Mas, aqui no blog, tenho notado uma grande quantidade de comentários referentes a situações concretas, embora também haja comentários sobre o Direito em seu lado abstrato (entre outros assuntos de comentários).

Recebo desses comentários sobre situações específicas quase todos os dias. E a cada dia, conforme vou lendo e refletindo sobre cada comentário, eles me comovem mais e mais. Se um autor de blog jurídico não é capaz de se comover diante de um drama pessoal relatado por um leitor, será que ele entendeu o que é ser autor de um blog jurídico? Os que pretendem lançar os seus blogs jurídicos devem pensar nisso também. Não é apenas comovente cada história em si, mas o fato de ser muitas vezes impossível prover uma solução para cada uma das situações apresentadas. Caímos, então, naquilo que já disse e repeti muitas e muitas vezes: ocorre muito de muitas das situações apresentadas pelos leitores serem bastante específicas, impossibilitando uma solução de longe, sem que haja a análise advocatícia pessoalmente sobre o caso.

Aqui, o blog jurídico aparece como um elemento revelador também. Tanta gente se forma em Direito, tanta gente é aprovada no Exame de Ordem (embora mais pessoas ainda sejam reprovadas no Exame), de modo a dizerem que a advocacia está saturada, mas, ao mesmo tempo, tanta gente está precisando de advogados, e muitos simplesmente não acham um, ou não entendem o que seus advogados falam ou fazem. É evidente que há muitos advogados brilhantes e que fazem o seu trabalho muito bem. Não se nega isso. Mas o volume de pessoas perguntando aqui – e provavelmente em outros lugares – dá uma pista sobre uma situação que precisa ser pensada. Nesse meio tempo, continuam as reflexões sobre como prover os leitores de informação jurídica, de uma forma viável e ética. E o ato de blogar em um blog jurídico se torna também um aprendizado. Não é possível pensar em um blog jurídico como sendo explicável sob apenas um aspecto. Aí esta a mágica dos blogs. Aí está a sua complexidade. E aí reside também o que faz dele um desafio.

Posso dizer, tranqüilamente, que não existe concorrência em termos de blogs jurídicos. Em minha mente, tenho visualizado uma quantidade realmente muito grande de pessoas que estão em busca de conhecimento jurídico. Imagine um número muito grande de pessoas que você acha que se interessariam por um blog jurídico. Agora multiplique esse número por mil. É claro que isso é apenas um jogo com números, mas se você sentiu um impacto grande, visualizando um número inimaginável de pessoas, então entendeu o que quero dizer com quantidade realmente muito grande de pessoas.

Acredito, assim, que há bastante espaço para que sejam escritos bons blogs jurídicos, desde que seu autor possa sentir a essência do que represente um blog jurídico para a sociedade brasileira atual. Os leitores estão esperando, e serão fiéis se o conteúdo dos blogs realmente lhes disserem alguma coisa. Talvez um novo blogueiro jurídico imagine que deve saber tudo sobre blogs e sobre como blogar efetivamente, antes mesmo de lançar um blog. Mas a experiência adquirida ao longo das postagens é muito importante também.

É importante lembrar que o blog jurídico talvez não seja a solução adequada para certos “problemas” enfrentados em toda essa complexidade de dramas pessoais e busca de informação jurídica. Um blog – isso é muito importante – não é uma chave-mestra. Um blog não vai abrir toda e qualquer porta, não vai servir para tudo. Talvez um arquivo de 10 páginas em pdf seja, em determinados casos, muito mais informativo e eficaz do que um post. Tenho refletido também sobre alternativas para o fluxo de informação jurídica, o que me faz querer repetir: o blog não é uma chave-mestra.

Outra coisa a ser lembrada: o leitor é uma pessoa viva e pensante. E, como tal, entende que o blog é aquela formação do nós, de que falamos acima. Então, a postura de qualquer pessoa em um blog, autor ou leitor, é a de interação e debate. Sinceramente, acho que, no Direito, o avanço e o aperfeiçoamento dos blogs jurídicos poderão se mostrar, em alguns casos, muito mais eficazes na reflexão e interpretação jurídicas do que a consagrada doutrina. Então, nossos tribunais perceberão isso e os debates da blogosfera jurídica poderão ser reconhecidos como um repositório de conhecimento jurídico a ser aplicado por tais tribunais.

É assim que percebo o ato de “blogar” como um desafio. E há diariamente uma comoção, mas ao mesmo tempo um impulso para continuar. Este blog não seria nada sem os queridos leitores.

3 COMMENTS

  1. Belo post!
    Realmente, criar e manter um blog jurídico dá trabalho. Muito trabalho. Porém, eu acho que vale a pena!
    Quanto ao que você disse sobre como nós ajudamos a sociedade (com informações que muitos desconhecem) faço uma ressalva: um tempo atrás criei uma seção no meu blog entitulada “Seus Direitos” onde a idéia básica era responder perguntas enviadas pelos leitores sobre Direito (dúvidas simples, na maioria das vezes sobre algo relacionado ao direito do consumidor). Eu entendi, na minha ideologia de estudante, que assim eu aprenderia mais (uma vez que pesquisaria para responder corretamente) e ajudaria uma pessoa necessitada. Ocorre que fui ameaçado pela oab de ser representado em um processo administrativo, por infringência a alguns artigos do código de ética…
    Ou seja, além de ser difícil escrever em um blog jurídico, ainda é preciso cuidado com a oab 🙂

    E ah, não existe mesmo qualquer concorrência em blogs jurídicos! Quanto mais melhor!

    Abraço

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