Um presente de Natal (Fatos Ribeirão-Pretanos #14)

0
💡

Uma menina brincava na calçada enquanto o seu pai lavava o carro. Ela tinha algo em torno dos nove anos, mas nunca tinha percebido, antes, que a casa vizinha era habitada. Somente agora notara uma presença na humilde residência ao lado: um velho, sentado numa cadeira de balanço, na varanda de frente.

– Papai, você viu que tem uma pessoa ali? – sussurrou a menina.

– Sim… Ele sempre morou aí. Você nunca o tinha visto?

– Não.

– É que ele aparece pouco. Fica a maior parte do tempo trabalhando dentro de casa.

– O que ele faz?

– Brinquedos de madeira, como a casa da Titi, – disse o pai, referindo-se à boneca preferida da filha.

A conversa não passou disto, mas a menina ficou pensando muito no assunto. Desde quando ganhou, de seus pais, a casa de madeira, para que Titi tivesse um lugar onde “morar”, ela mudou a sua forma de pensar. Sentia-se mais consciente das coisas que pensava, e as suas imaginações pareciam ter um colorido mais intenso.

A casa de madeira havia sido um presente de Natal no ano anterior. Os pais da menina se sentiam realmente muito orgulhosos sempre que notavam um fato que não tinham planejado. É que a menina cuidava de sua casa de madeira com o carinho de alguém que cuida de uma casa que conseguira construir com o próprio trabalho, e a sua dedicação ao seu brinquedo era tamanha, que a menina não tinha muito tempo para gastar usando tablets, embora tivesse um destes e o usasse de vez em quando.

De fato, a menina cuidava muito bem da sua casa de madeira. Às vezes, pintava as janelas, colocava uma nova flor no jardim frontal ou mudava de posição o carro de Titi. Frequentemente, a menina escrevia bilhetinhos com poesias e deixava na caixa de correio de Titi, para fazer de conta que a boneca recebia correspondências. Assim, a menina sempre tinha algo para fazer e assunto para conversar, pois eram muitas as histórias que ela criava, todos os dias, em torno da casa de madeira que ganhara de Natal.

A menina, pouco depois de descobrir a procedência do seu brinquedo, teve um raciocínio que a deixou confusa: se este senhor mora aqui em Ribeirão Preto e fica o dia inteiro fazendo brinquedos, como é que ela nunca vira outra casa de madeira igual à sua, nem outro brinquedo de madeira, junto aos seus coleguinhas de escola e do bairro? Ela foi, então, até o seu pai para inquirí-lo a respeito.

– Pergunte isso para sua mãe, pois ela deve saber explicar melhor do que eu, – disse o pai.

– E então, mamãe? Por que ninguém comprou um brinquedo igual ao meu?

– Porque não existe brinquedo igual ao seu à venda, – disse a mãe. – Nem o seu estava à venda.

Diante do olhar ainda mais confuso da menina, a mãe disse, então:

– Bem, tudo o que sabemos é que o Senhor Noel, nosso vizinho, entregou-nos a casa de madeira e disse que ele nunca vende um brinquedo, mas apenas os faz e os entrega a quem saberá brincar com eles.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here